quando o mundo desacelera em você

eu estava em queda.
dessas silenciosas,
que não fazem barulho por fora
mas desmoronam tudo por dentro.
o corpo pesado
como se existir exigisse força demais
e eu…
sem força nem para o básico.
nem para sair da cama.
nem para mim.
mas você insistiu.
não com peso,
não com cobrança,
mas com uma presença que puxa devagar
como quem estende a mão
e espera.
então eu fui.
engoli o remédio
como quem tenta reorganizar o caos em cápsulas.
visti coragem
mesmo quando ela não servia direito.
entrei no banho
como quem tenta lavar o cansaço da alma.
e fui me arrumar.
pela primeira vez
você pagou minha entrada.
e não era sobre dinheiro.
era sobre cuidado.
sobre dizer, sem dizer:
“vem, eu estou aqui”.
e é incrível…
a forma como você me acalma.
como se a bagunça aqui dentro
fosse um quarto revirado
e você chegasse abrindo a janela
deixando o ar entrar
colocando as coisas no lugar
sem pressa
sem julgamento.
estar com você
é pausa.
é silêncio que não dói.
é leveza que não cobra.
é descanso no meio do caos.
eu, que não consegui levantar da cama,
dancei.
dancei como nunca.
como se meu corpo lembrasse
por algumas horas
como é viver sem peso.
e entre uma música e outra
a gente parava.
conversava.
e, de algum jeito,
você me entendia.
organizava em palavras
o que em mim era só confusão.
como você faz isso?
como você alcança partes minhas
que nem eu sei nomear?
você é constância.
a minha constância.
num mundo que oscila
numa mente que vacila
numa vida que às vezes escapa das mãos…
você permanece.
mesmo longe,
você está.
e, depois de uma semana inteira de insônia,
pela primeira vez em três anos,
eu dormi.
sem remédio.
eu só deitei
e dormi.
e no meio de tudo isso
tem uma certeza quieta
mas firme:
ver os anos passarem
e, no meio deles,
nossos olhos ainda sabendo
onde se encontrar.
obrigada
por ser esse lugar
onde eu consigo,
mesmo quebrada,
ainda existir
em paz.
por Thais Diandra