No fundo da chuva
Chega um momento
em que o céu não pesa apenas sobre a cabeça.
Ele desce.
Desce até os ombros,
até os ossos,
até o lugar onde a respiração nasce.
E então o ar fica espesso.
Os dias deixam de começar.
Eles apenas continuam.
Uma manhã não é diferente da outra.
É o mesmo céu fechado
esticado sobre todas as horas.
O mundo ainda acontece lá fora.
Carros passam.
Pessoas riem.
As árvores continuam conversando com o vento.
Mas aqui dentro
tudo soa como se viesse de muito longe.
Como se eu estivesse no fundo de um lago
olhando a superfície da vida.
A chuva já não cai do céu.
Ela cai por dentro.
Escorre pelas paredes do peito,
alaga os pensamentos,
apaga as últimas brasas
que ainda lembravam calor.
Há um silêncio pesado
entre um batimento e outro.
Não é descanso.
É ausência.
Como se algo essencial
tivesse se retirado do corpo sem avisar.
Não é tristeza.
Tristeza ainda é movimento.
Ainda sabe voltar.
Isso não.
É um inverno sem estação.
Um céu tão baixo
que quase toca o chão.
E eu estou aqui,
no ponto mais fundo da chuva,
onde até a esperança
aprende a falar baixo.
por Thais Diandra