A loucura que não era minha
Ele me dizia que eu estava vendo coisas onde não existia nada.
Mas era ele quem mexia nas frestas da realidade.
Apagava as luzes,
mudava as coisas de lugar,
trocava as palavras de sentido.
E depois me olhava com aquele ar tranquilo,
quase doce,
como quem observa alguém se afogar
e ainda oferece um sorriso.
No começo, eu achava que era distração minha.
Que talvez eu tivesse mesmo confundido as lembranças.
Então comecei a me vigiar o tempo todo.
O que eu dizia,
o que eu sentia,
o que eu lembrava.
Mas cada tentativa de me provar que eu não estava louca
me deixava mais confusa,
mais distante de mim.
Era como morar numa casa cheia de espelhos quebrados.
Cada reflexo mostrava uma parte distorcida.
Um pedaço de mim exagerado,
outro apagado,
outro irreconhecível.
E ele passava por ali, leve,
inteiro,
sorrindo.
Enquanto eu tentava colar meus fragmentos
com as mãos trêmulas,
ele dizia que eu estava exagerando,
que eu inventava dores,
que eu via monstros onde só havia poeira.
Mas era ele quem arrastava os móveis à noite.
Era ele quem abria as janelas para deixar o vento bagunçar tudo.
E depois, ao amanhecer, me perguntava por que eu vivia cansada.
Eu comecei a duvidar da minha sanidade.
E ele parecia gostar disso.
Era como se, cada vez que eu me perdia um pouco mais,
ele respirasse aliviado,
como quem vê o veneno fazer efeito.
Um dia, quando o teto girava
e o chão parecia desabar,
eu gritei.
Gritei alto, tentando achar um som que fosse meu.
Ele apenas cruzou os braços,
com aquele mesmo olhar manipulador de sempre,
e disse:
“Tá vendo?
É por isso que ninguém te aguenta.
Você é louca.”
E, naquele instante, eu entendi.
Não era loucura o que ele via em mim.
Era o reflexo dele,
distorcido
pelos espelhos que ele mesmo quebrou.
por Thais Diandra